quinta-feira, 9 de maio de 2013

PLANTANDO PINGO DÀGUA





Minha cacimba secou mais uma vez
Os braços já não aguenta mais cavar
A última vaquinha bebeu, mas se engasgou
Morreu matando o que vivia a lhe matar
E minh`alma adormeceu pra não me ver chorar

O terreiro batido já se enfeitou de couro e ossos
Do meu gadinho que há tempo defuntou
Já não tem barragem, açude, rios ou poços
Apenas uma torrente de remoço ficou
Num assovio uma canção pra distanciar a dor
A tardinha entre tanta carcaça contemplo o que sobrou

Sob o trago da fumaça da piúba dum brejeiro
Alegra-me um relâmpago na barra quebrar
E como um sertanejo sofrido, mas guerreiro
Meu roçado em pensamento começo plantar

Com a enxada da esperança cavo o chão que tudo faz nascer
No matutar dos meus sonhos quero todo o sertão plantar
Plantarei bilhão, decilhão, vigesilhão de pingos dàguas
Pra quando eu começar a colher
Quando for no tempo da fartura
Quero todos os silos da terra encher
E a seca que a tudo consome eu possa erradicar.
E a assim, nunca mais no meu torrão ver, bicho de fome e cede morrer.

Lino-sapo

terça-feira, 30 de abril de 2013

FILIZ DIA DO TRABA-I-A-DOR


É no desbenguelar da serra
Que tem minha Guarida
Uma terra pequeninha
Mai muito quirida.
É Cachoeira do sapo
Pur donde vivi a vida

Na amanhecença do dia
Pra bataia o povo vai filiz
Num importa Cuma
Se Esquece as cicatriz
Na escurença da noite
Do dia fumo aprendiz

O trabaio nessa terra
Sempre foi cum alegria
Num importava a labuta
Pela noite ou mermo o dia
Mueres e homis da terra
Da tarefa num curria

O prugresso vem do trabaio
Eita povo trabaiador
O suor molha o rosto
Com humildade e amor
Trabaiar é nosso oficio
Sob as benças do criador

Aqui todo mundo bataia
Do jeito que a vida dar
Nem vou dizer quem são
Deixarei eles se apresentar
Um bucado danado
Farta dedo pra contar

O meu nome é Francisco
Mais um chico em ação
O
machado minha ferramenta
Cortar lenha a missão
Assim ganho a vida
Na passage do verão

Os calos que machucam
Num atrapaia minhas mãos
Corto lenha e arrumo
As vezes faço cavão
O sol já é um amigo
O fogo um bom irmão

O meu nome é José
Mas carpinteiro não sou
Na verdade cultivo a terra
Sou apenas agricultô
A enxada a companheira
Parceira desse trabaiador

Planto de tudo um pouco
se apreparando pru verão
Pranto milho, jerimum
Fava, maxixe, feijão
Quiabo, pepino, melancia.
Tombém pranto o melão

O meu nome é Juão
má querença do facheiro
Meu labutar é diferente
Já nasci um vaqueiro
Cada brenha dessa terra
Eu conheço pu inteiro

Nas madrugadas frias
As vacas vou ordenhar
Cumeça o meu dia
No curral a bataiar
O cavalo fiel parceiro
pru  gado eu aboiar

Maria de dona Tonha
Assim que mim cunhecem
Sou custureira desde nanica
E isso num me aburrecem
Custuro cum mui prazer
Poi os crientes merecem

Faço vestido de chita
Ou roupa de batizado
Agulha e linha parceiras
Tombem faço bordado
Já fiz vestido de noiva
E roupa pru delegado

Meu nome é sivirina
Meu oficio é cozinhar
As panelas minhas amigas
O fogo num pode apagar
Na amanhecença do dia
O café vou preparar

Cozinho com amor
Mior tempero que há
Faço um baião de dois
Que todos vão gostar
e a minha feijoada
ocê come pra se acabar

Meu nome é pedro
E faz jús a prufissão
Pedro vem de pedra
Trabaio na construção
Sou um simples pedeiro
Trabaiando cum dedicação

Num terreno baldio
Uma casa eu levanto
Tijolo por tijolo
Ainda reboco os cantos
Tombem faço reforma
E termino com encanto

Meu nome é jusefina
Neta de uma parteira
Meu trabaio é no cuidar
Se tornei uma infermera
Quem dera tivesse o dom
De ser uma curandeira

Aos duentes me dedico
Pra ver sua arecuperação
Limpo e troco curativos
Tombem aplico injeção
Faço o medicamento
E virifico a pressão

O meu nome é Antonho
Comerciante do lugar
Compro, vendo e troco
Pru negocio é só chamar
Se der certo pra nós
Pudemos negociar

Vendo de garajal de rapadura
Á travessa de portar
Compro do mermo jeito
Assim se tenha a ofertar
Troco cabra em uveia
O
dinhero faço andar

Essa e a nossa terra
E nosso povo trabaiador
Aos oios de são josé
Padoeiro e prutetor
festejemos todos juntos
O dia do trabaiador

Entre tantas marias
Juzé, Antonhos e juãos
A todos os trabaiadores
Seja qual for a prufissão
do minino ao veio
Fica a nossa gratidão

Homis e mueres de paz
O ano intero a bataiar
Desde o raiá do sol
Inté a luz do luar
Parabéns pelo lindo dia
Merecemo, ramo cumemorar.












terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Aprendizagem


“Um dia acreditei no amor e vi a mentira adestrar minha vida. Hoje vivo de mentiras e, só assim, pude adestrar o Amor”.

Lino Sapo

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

LABUTA SERTANEJA


Chicote de couro lapiando um couro
Apressando quatros patas a andar
Ferro, madeira, uma corda a guiar
O homem atrás do que antes foi touro

A terra é ferida no encontro com o arar
Prepara-se para um inverno vindouro.
Pro sertanejo mais importante que ouro
Cicatriza-se com as plantas a florar

Homem, boi, terra e capinadeira
Um trio sofrido de missão altaneira
Seis pernas, três enxadas, uma roda

Unidos na mesma luta pela engorda
É seus buchos que dita à maneira
Assim, o lapiado com o lapiador concorda


quinta-feira, 8 de novembro de 2012

O PAU QUEBROU NO CÉU


Num faz muito tempo não
Que minha mãe me pariu
Quase morre desnutrida
Inda bem que resistiu
E o danado do eu
Na hora de chorar caiu

A vida me deu um golpe
Desse bem traiçoeiro
Nasci feio, mago e doente
Sem nome e nem dinheiro
Preguiçoso e desatento
Dorminhoco e bandoleiro

Nem rezar eu aprendi.
Nem a cavalo andar
Cortar lenha e capim
Muito menos campinar
Única coisa que sabia
Era pra escola estudar

Num me vejo fracote
Pois a fome me esfolou
Meu corpo era sofrido
É só doença conservou
Mas na escola eu sonhava
Em um dia ser doutor

Acabar essa miséria
Que o meu corpo matava
De fome e de tristeza
Pela carência que passava
Comer e viver bem
Era somente o que pensava.

Estudei como um louco
Pra uma boa vida ter
Levava os estudos a sério
Pois queria aprender
E quem sabe um dia
Essa angústia reverter

Num demorou muito tempo
Meus estudos terminei
Liso, pobre e moribundo
Mas os sonhos conservei
De um dia ganhar dinheiro
Pois pra isso estudei
 
Logo logo o resultado
Em um concurso passei
Fiquei contente, saltitante
Pensando da fome me livrei
Depois de muitos anos
Ao trabalho eu ingressei

Era um bom dinheiro
Um carro pensei comprar
Uma feira grande e boa
Uma casa para morar
Roupa boa e bonita
Pra sair pra passear

Quase no final do mês
Esperando o soldo receber
Dar-me uma dor no peito
Que fiquei pra morrer
Deu uma escuridão na vista
Fui caindo a tremer

Acordei num lugar de luz
Sem saber aonde cheguei
Abriram uma porta grande
Desconfiado eu passei
Com passos cautelosos
Pelo salão caminhei

Veio um caba bem vestido
Encontra-me pelo salão
E disse todo sorridente
- São Pedro ta em reunião
Aguarde um momento
Vamos fazer sua inscrição.

- Eita bexiga taboca
Parece que eu defuntei
Mas homi, num pode ser
Agora que a vida ganhei
Perai, deve ter algo errado
Eu apenas desmaiei

O anjo todo sorridente
Prático na psicologia
Disse mostrando o céu
- Aqui será sua moradia
Esse lugar é perfeito
Sem fome e sem maruzia

- Ei senhor, de jeito nenhum
Podem mudar essa relação
Deve haver algum engano
Vocês confudiram o listão
Agora que eu ia viver
Ia ter leite e muito pão

Deixe de covardia rapaz
Que negócio mas sem graça
Se era pra me trazer
Porque não no tempo da desgraça
Que passava fome e frio
E dormia em banco de praça

Agora que eu ia ter dinheiro
E minha vida melhorar
Vocês num tem o que fazer não?
Resolveram me lascar?
No melhor momento da vida
Decidiram me matar

Diga-me quem fez a lista
Que quero ir resolver
Onde já se viu isso
Tanto Santo a me fuder
Quem autoriza essas mortes?
Precisa a lista rever

O anjo todo imponente
Imperoso feito um político
Disse-me olhando nos olhos
- Só faço o que me aplico
Se conforme com a morte
Seja educado, pois não complico.

Olhei para o anjo e falei:
Rapaz eu sempre fui bom
Nunca na minha vida
Consegui sair do tom
Sempre fui prestativo
Manso feito um garçom.

Nunca briguei na vida
Com medo de apanhar
Pois era fraquinho
Não sabia nem brigar
Nunca fiz mal a um inseto
E vocês resolvem me matar

As cabas de peia
Nesse céu a habitar
Parece os políticos brasileiros
Lá na terra a roubar
Não sabem nem o que fazer
Mas não deixa de mandar.

Porque não o povo ruim
Que vive ai a tumultuar.
Faça uma lista de ladrão.
Tenha certeza vai bombar
Político e Banqueiros  
Esse salão irá lotar.

Ai vocês resolvem trazer
Um caba como eu
Que passou a vida inteira
Só fudido no breu
Justamente na horinha
Que ia acabar meu liseu

Sua política de seleção
Deve ta ultrapassada
Ou vai dizer que no céu
Também tem marmelada
Não basta mensalão na terra
Seu Joaquim julga a tonelada

O danado do anjo
Nem fez conta deu
Olhou de supetão
Com o dedo respondeu
Vá se assentar ali
Você teve o que mereceu

Eu nunca fui de tumulto
E nem um desrespeitador
Mas quando escutei isso
O meu peito se inchou
Dei um chute na prancheta
Que o anjo se assustou

Um tamborete novinho
Que são José havia feito
Dei um chute bexiga
Desmanchando de todo jeito
O bicho bateu na parede
Tirando da tinta o eito

Dei uma voadora
Na porta da reunião
A bicha se esbagaçou
Sai bolando pelo chão
Só parei porque bati
Nas pernas de São João
 
Ali tavam resolvendo
Onde teria mais calamidade
E santa Efigênia grita
Que isso? por caridade.
Santo Antonio diz:
É revolta da humanidade!

Quebrei umas cabaças de vinho
E as flechas de são Sebastião
Nos cachorros de São Francisco
Dei uma pisa de cinturão
Montei no cavalo de são Jorge
E quebrei por inteiro o salão

O espelho de santa Luzia
Que uma chapinha tava a fazer
Quebrei em mil pedaços
Ela começou a se tremer
O Tablet de santa Rita
Que no Facebook a entreter

Joguei dentro de uma tangue
Ela ficou pra morrer
Até que apareceu
São Paulo pra me prender
Ainda tomei o celular
De uma santa sem querer

Revirei uma mesa grande
Da bancada de São José
Serrote, alicate e prego
Danei o martelo num pé
Só escutei o grito.
Tadinho do São Tomé.

Foi cabaré bixiga
O céu ficou esbagaçado
Tinha Santo rezando
E outros desconfiado
São Pedro debaixo da mesa
Acho que tava mijado.

Perguntei quem era o autor
Dessa lista indecente
Apontaram São Silvestre
Disseram ser competente.
-Mas, mataram um coitado
Que na verdade é inocente.

São Silvestre disse: amigo
Veja o que aconteceu
Pode ter havido erro
E o culpado não sou eu
Adquirimos um Software novo
Talvez disso o erro ocorreu.

Mas vamos checar
Para não ter confusão
Se não era seu dia
Se ajeita a situação
Não carecia tanta baderna
Numa coisa dessa não.

Nisso entra Jesus
Procurando se interar
O que aconteceu aqui
Alguém pode explicar
Maria madalena se chegou
Começou a história narrar

Jesus nos perdoe
Pelo que aconteceu
Não temos culpa alguma
Sobre o que ocorreu
Esse jovem revoltado
Tá furioso porque morreu

-Jesus você é um caba bom
Perdoe minha indecência
Mas ser sacaneado no céu
Deve ser por negligência
Matar um caba como eu
Deve doer na consciência.

Quarenta e cinco ano fudido
Nem hóstia em missa provei
Ainda pagava água e luz
Rezei tanto que me machuquei
Ta qui a ferida no joelho
Das vezes que lhe implorei

Ai agora que me ajeito
As coisas a funcionar
Me vem uma dor no peito
Nem o salário vou gastar
Ai esse seus funcionário
Ainda vai me desacatar

Jesus alisou a barba
E pensou no que dizer
Realmente ta injusto
Vamos pensar o que fazer
Matar um pobre coitado
Que agora ia viver

Andou sentou andou
A lista pediu pra olhar
Foi olhando e foi dizendo
Eita tem erro pra danar
É erro de grafia
Podemos concertar

É que depois do facebook
Ninguém escreve correto
Depois que automatizei o céu
Esses erros é direto.
Falta acento, falta letra
Mudaram de vez o alfabeto.

Tem uns estagiários de santo
Que ta um caso a rever
Só vive de bate papo
Nada mais quer fazer
Só lançando um edital
Pra um concurso ter.

Eu disse dar o céu aos bons
Esse povo nem sabe pensar
Eu falei por metáfora
Era pra a eles ajudar
Melhorando a vida na terra
E não trazendo para cá

Me desculpe seu Severino
Esse erro do povo daqui
Volte pra sua terra
Esqueça que esteve aqui
Parabéns pelo o esforço
Viva em paz pode curti

As feridas de seus joelhos
Elas não foram em vão
Nem quando você
Acreditou na educação
Daqui de cima lhe aplaudi
E te mandei essa benção.

Rapaz depois disso
Acordei no meu setor
Parecia ter sido um dia
Mas só uma hora se passou
Pensei ter sonhado
Mas um detalhe denunciou

Minhas mãos tava inchadas
Do murro que dei na mesa
E o meu sapato rasgado
Pra aumentar a surpresa
Foi dos chutes que dei
Do agir com aspereza

Descobri que lá no céu
A coisa é truncada
É como aqui no Brasil
Só funciona na porrada
Tem muito arrumadinho
Só trabalham na mamada





































quinta-feira, 6 de setembro de 2012

frases do linosapo


“Um dia serei eu, e não mas existirei, mas lembrarei de mim.”

“Ensinaram-me sem saber e eu aprendi sem perceber”

“Não minto pra mim para não ter que viver como um covarde ao mesmo tempo em que serei um idiota”.

“Horror não é ver seu corpo sendo assassinado pela fome, e sim, com isso, seu espírito suicidando socialmente”.

sábado, 25 de agosto de 2012

SONETO DE RECOMEÇO




Hoje senti o ontem me dividindo
Foi agora nesse justo momento
Acordou o medo que vivia dormindo
Vindo ao chão antigo juramento.

Observei a razão se curvar a emoção
Um homem voltar a ser menino
Viajante caminhando sem direção
Sem saber lidar com o destino

Uma parte rendida por desejos
A outra dependente de beijos
 E o EU, sem sozinho poder caminhar.

É o novo que determina seus passos
Do antigo nem ao menos rastos
E o cético do amor volta a amar